Regimes autoritários e infraestrutura precária impulsionam uso de dinheiro em espécie e Bitcoin, aponta estudo

Autores do artigo original: Ghita Chraibi

The Political Economy of Financial Disintermediation: Understanding Fintech Adoption and Inclusion Through Cash and Bitcoin Usage

Uma pesquisa desenvolvida na Universidade de Virginia estabeleceu que a desintermediação financeira — a preferência por realizar transações fora do sistema bancário tradicional — é impulsionada tanto por limitações de infraestrutura física quanto por restrições de direitos políticos. Analisando o uso de dinheiro em espécie e de transações ponto a ponto (*peer-to-peer* ou P2P) de Bitcoin globalmente, o estudo demonstra que cidadãos em regimes autoritários tendem a contornar as instituições financeiras formais para proteger sua privacidade e seus bens contra a vigilância e possíveis abusos do Estado. As descobertas evidenciam que a tecnologia financeira não serve apenas para a inclusão bancária, mas também funciona como um canal de escape político.

Por Ghita Chraibi, University of Virginia — Charlottesville, Virgínia, Estados Unidos

Publicado em 2026-08-27 • Atualizado em 29/08/2026

A rápida expansão das tecnologias financeiras (fintechs), como pagamentos digitais e bancos móveis, reduziu barreiras de custos e documentação em todo o mundo. No entanto, a desintermediação financeira — a opção por realizar transações sem intermediários de confiança — permanece persistente em diversas nações.

Uma nova teoria sobre esse fenômeno propõe que a desintermediação é alimentada por fatores de oferta (infraestrutura bancária subdesenvolvida e fraca capacidade estatal) e fatores de demanda baseados em incentivos políticos. Em ambientes com severas restrições às liberdades civis, o dinheiro físico e o Bitcoin oferecem propriedades de transação privadas, imediatas e finais, protegendo os cidadãos do monitoramento ou do confisco governamental.

Análise em larga escala

A teoria foi testada por meio de duas análises estatísticas utilizando modelos de efeitos fixos de duas vias. O primeiro modelo avaliou a dependência de dinheiro em espécie em 158 países entre 2001 e 2020, medindo a proporção de moeda física em circulação em relação aos depósitos bancários.

O segundo modelo examinou a fatia de transações ponto a ponto de Bitcoin — realizadas diretamente entre usuários, sem uso de corretoras centralizadas — sobre o volume total de criptoativos em 161 países, de 2019 a 2024. Este último utilizou dados fornecidos pela empresa de inteligência em blockchain Chainalysis.

Os resultados revelaram que a infraestrutura bancária desempenha um papel crucial de oferta: o aumento da densidade de agências bancárias físicas reduz sistematicamente a desintermediação financeira, tanto no uso de dinheiro em espécie quanto na escolha de Bitcoin P2P.

O fator político como motor da desintermediação

Por outro lado, as instituições políticas mostraram-se motores decisivos de demanda. A fragilidade no Estado de Direito e a limitação da liberdade de expressão registraram correlação estatística direta com o aumento da desintermediação em ambas as análises.

Segundo o estudo, governos autoritários frequentemente instrumentalizam as instituições financeiras tradicionais como ferramentas de repressão política, como no congelamento de contas bancárias de dissidentes ou na aplicação de reformas cambiais confiscatórias. Frente a esses riscos, os cidadãos tomam decisões racionais de retirar seus recursos de canais rastreáveis ou de evitar totalmente o ingresso no sistema formal.

Essa dinâmica de desconfiança institucional manteve-se ativa e significativa mesmo em países dotados de ampla infraestrutura bancária formal, comprovando que a demanda por autonomia financeira opera de forma independente à facilidade de acesso físico aos serviços financeiros.

Nuances no uso de Bitcoin

O estudo identificou uma diferença importante no comportamento dos usuários em relação ao Bitcoin. Embora a relação entre retrocessos democráticos e o aumento da dependência de dinheiro físico tenha se mostrado uniforme, a escolha pelas transações descentralizadas de Bitcoin P2P revelou-se altamente sensível a casos extremos de repressão governamental.

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